segunda-feira, 17 de agosto de 2009

crônica: O BÊBADO E A MARIA DA PENHA

Rubens Antônio da Silva

O que aconteceu foi mais ou menos assim. O marido bebeu além da conta. Chegou em casa bancando o valente. A mulher, deficiente de uma perna, ficou perturbada em sua cadeira de rodas. Sabia que ele ficava assim quando bebia. Mas agora ele estava exaltado demais. O netinho pequeno e filha da vizinha ali presentes ficaram um tanto assustados. E o homem gritava, batia na parede, batia nos móveis, quebrava pratos. “Hoje eu mato alguém”, bradava. “E é você, mulher!”. Olhava pra ela e se apoiava na parede, as pupilas dilatadas. “Chamem a Polícia, senão vou matar você. Com oitenta facadas. Oitenta facadas! Chamem a Polícia!”, ele mesmo rosnava assim, cambaleando. “Eu pego essa mulher, eu enforco ela. Eu pego, eu enforco. Chamem a Polícia!” A mulher perdeu a paciência: “chamem a Polícia!”, pediu. Alguém chamou. O bebum ainda repetia aquelas mesmas palavras quando o carro policial parou à frente da casa. Prisão em flagrante. A Cadeia de Porangaba deixou más lembranças.

O Ministério Público manifestou dizendo que o homem poderia responder em liberdade, sem pagamento de fiança. Não tinha antecedentes. O magistrado deferiu. O homem foi solto. Em vez de mantê-lo recolhido, o juiz determinou que ele posto pra fora... até de sua casa. Medida Protetiva da mulher: artigo 22 da Lei Maria da Penha. Estava proibido de voltar para casa e de se aproximar da família.

Chegou o Oficial de Justiça. A mulher atende, manejando sua cadeira de rodas. “Afastamento do lar? Não. Deixa ele ficar. Ele é um homem bom, trabalhador, é que estava bêbado. São, não tem marido melhor. E ele prometeu que não bebe mais. Ele não tem para onde ir. Ele vai ficar triste.”

Não teve jeito. A lei determina. O Juiz manda. O Oficial cumpre. Foi para a casa da filha casada.
A mulher enfim concordou: ele precisava mesmo levar de um susto.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

ÁGUA

Rubens Antônio da Silva
.
Uma criança de sete anos sabe muita coisa... O pai, ao verificar a falta de água mineral no pote, pede ao menino:


- Filho, ligue e peça um galão de água.
Mas uma criança de sete anos não sabe tudo.
O menino consulta o índice telefônico e liga:
-É da Sabesp?...
.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

biografia: Quem foi Paulo Setúbal


Paulo de Oliveira Setúbal foi um escritor brasileiro nascido em Tatuí no dia 1º de janeiro de 1893 e falecido na capital paulista em 4 de maio de 1937. Foi advogado, promotor de justiça, deputado duas vezes e escritor, tendo também exercido o cargo de professor no Ginásio Arquidiocesano e na Escola de Comércio do Bras.

Iniciou seus estudos com um professor particular, Francisco Evangelista Pereira de Almeida, o Chico Pereira, transferindo-se depois para o Grupo Escolar de Tatuhy, hoje a Escola João Florêncio. Indo sua família para São Paulo, matriculou-se no Ginásio do Carmo, dirigido pelos irmãos Maristas. Em 1910, presta exame e ingressa no segundo ano da Faculdade de Direito de São Paulo, bacharelando-se em 1914.

Abandonando a advocacia e a política, dedicou-se inteiramente às letras. Sua estreia, em 1920, com o livro de poesias Alma Cabocla, foi estrondoso. A tiragem incomum de 3.000 exemplares, que a Revista do Brasil editou, esgotou-se em menos de um mês. Porém seu maior sucesso aconteceu em 1925, com o romance A Marquesa de Santos, que alcançou grandes tiragens, adaptação para o cinema e a televisão, e tradução para o inglês (EUA), francês, alemão, russo, espanhol, croata e árabe. O escritor brasileiro mais lido de seu tempo.

Foi membro da Academia Brasileira de Letras, Academia Paulista de Letras, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Instituto Histórico e Geográfico de Ouro Preto e do Instituto Histórico e Arqueológico de Pernambuco.

achados | Paulo Setúbal

AO POVO DE MINHA TERRA

Estou muito orgulhoso de ver em todos os jornais do Brasil, o meu nome ao lado do nome de Tatuhy.

Muito pouco tenho feito na minha pobre carreira literária. Se esse pouco, no entanto, servir para projetar um raio de luz sobre minha terra, que sempre estremeci, dar-me-ei por pago das minhas canseiras através de arquivos e alfarrábios.

Viva Tatuhy!

(a) Paulo Setúbal

(Saudação de Paulo Setúbal ao povo de Tatuí, através do jornal O Progresso de Tatuí, em 16 de dezembro de 1934, quando de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras.)

Fonte: Renato Ferreira de Camargo, in Memórias de Tatuí.

domingo, 9 de agosto de 2009

Tatuí: CASA DE PAULO SETÚBAL: 5 bibliotecas.


A Casa de Cultura Paulo Setúbal é um dos principais símbolos da cidade. Prédio antigo que serviu de cadeia e sede do Poder Judiciário, abriga o Museu Histórico de Tatuí e um auditório. Até há pouco tempo mantinha a grade de uma das celas, a última. Infelizmente, acabou sendo retirada. A sala de Paulo Setúbal exibe peças pessoais do escritor como o fardão da Academia Brasileira de Letras, sua maleta personalizada, cartões de visita e livros com sua dedicatória. Eu mesmo doei ao Museu um livro com a grafia dele. A maioria das peças históricas de Tatuí foram guardadas para mostrar um museu mais literário. Ficou bom, mas a história da cidade precisa ser de exibição permanente, eu acho. Ali vi trabalhar Hélio Reali, Sansão, Crispim, Macedo Dantas, Zuma Salati Visciglia, Leila Salum Menezes da Silva, entre outros. Uma curiosidade: a Casa de Cultura tem o acervo de cinco bibliotecas. Uma antiga, uma mais moderna doada pelo Estado (esta tem uma história, pois veio a substituir uma anterior, muito valiosa, que a secretaria estadual pediu de volta), depois veio a do escritor tatuiano Raul de Polilo, doada pela família após sua morte; a de Maurício Loureiro Gama, que doou em vida; e por fim a do filósofo Walter Silveira das Mota, que manifestou o desejo de fosse doada após sua morte. Estas três bibliotecas vieram acompanhadas de peças pessoais de seus donos, que passaram a fazer parte de nosso museu. Hoje, o Museu está novamente em reforma. É o prédio histórico mais bem conservado da cidade.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

crônica: O CACHORRO NO MURO

Rubens Antônio da Silva
Imagino que o dono tenha saído às pressas. Não deve ter notado que seu cãozinho de estimação fugira sorrateiramente ao abrir do portão. Certo é que, quando passávamos pela avenida, presenciamos aquela cena digna de aparecer na televisão: um cão entalado numa fresta de muro, remexendo o traseiro, já cansado, na tentativa de voltar para casa ou retornar à rua. As pessoas que chegavam iam se alarmando com tão insólita imagem. Ninguém queria por a mão. O animal não era tão pequeno assim, nunca se sabe. Há cães agressivos por aí. Calmo é que ele não deveria estar naquela situação.

É preciso tomar cuidado com a guarda dos animais, assim como de instrumentos contundentes, produtos químicos... E também trancar nossa cólera, a inveja, os instintos maldosos...

Resolvemos chamar um vizinho, alguém que conhecesse o animal, soubesse seu nome, enfim... É preciso resolver os problemas, delegar funções.

E a primeira pessoa que nos atendeu, um velhinho, se dispôs a socorrer o animal. A criatura era dócil, dizia ele. Era acostumado a roçar-lhe o pelo com as mãos, a falar com ele, se entendiam bem. O homem sacou o cachorro na altura das costelas e puxou-o para fora, depositando-o rapidamente no chão. Um belo vira-lata, que saiu lépido, sem agradecer. Parece que nem reconheceu o amigo que o salvara. Era um cão: um homem deve ser sempre agradecido àqueles que, de uma forma ou de outra, os livram dos apertos do dia-a-dia.

Parecia tudo resolvido. Entramos na casa de uns parentes ali nas proximidades já com assunto para conversar. Cumprimentos, afagos, recepção calorosa. Mas não demorou muito e eis um novo alvoroço na rua. Saímos apressados e curiosos, o que seria desta vez? Não era outra coisa senão o cachorro novamente entalado no buraco do muro, arranhando o reboco no ímpeto de se lançar para dentro da casa. Saímos todos para a via pública, agora mais risonhos que preocupados. Algumas crianças já haviam chamado aquele prestativo senhor, que agora vinha mal humorado, xingando o cão, maldizendo o dono. O que dizer de um animal de estimação sem o direito de ir e vir? Fosse gente, diríamos que às vezes é necessário desistir de nossos sonhos, sim. Mas, com referência ao buraco no muro, mal comparando, seria como convidar um amigo para o almoço e sair de casa, ou coisa assim. Sim, o buraco no muro era um convite ao cão. É preciso tapar os buracos que insinuam mas não deixam entrar, os convites vazios.

O homem sacou o cão, desta vez de má vontade, e o lançou violentamente ao chão. Por que maltratar o animal? Não precisava. Nós também fazemos coisas parecidas, só que com menos justificativas.

3º. lugar no 7º. Concurso Paulo Setúbal - Crônicas (2009), promovido pela Secretaria da Cultura de Tatuí.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

MAQUIAGEM

A mulher aproxima a face do espelho e retoca a maquiagem.
- Tia, por que você pinta o rosto?
Ela olha com ternura para a criança e responde:
- Pra ficar bonita!
Volta ao espelho e aperta os lábios para espalhar o batom.
A menina pensa por alguns segundos e então pergunta novamente:
- E por que não fica?...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

mar e espanto


Rubens Antônio da Silva
.
Um avião mergulha na madrugada.
Rasga silêncio e escuridão,
sepulta mistérios nas águas geladas.
Despedaça sonhos e ilusões.
.
Baque surdo Atlântico
propaga ondas de pavor aos continentes.
Salpica as gentes de água e sangue,
dor e desesperança.
.
Petrificados de espanto,
homens mergulham
oceanos de suas almas,
catam destroços de si mesmos,
dilacerados:
violência de (não)notícias.
.
Sobre o mar agora
a calma ignorante.
Nuvens inconsequentes pairam negras.
Retrato do que não se quer reconhecer:
.
A vida é boa
A vida voa
A vida escoa



como ao mar.
.
Tatuí, 2009

domingo, 26 de julho de 2009

sábado, 18 de julho de 2009

as palavras sofrem: LIXO

Parece até um jogo de palavras: jogue o lixo no lixo. Na verdade, o mau cidadão que joga lixo no terreno baldio, "onde todo mundo joga", está jogando lixo no lixo. Ele deveria, por questão de civilidade, jogar o lixo na lixeira. Mas, desde criança, somos acostumados a lançar coisas no "lixo". É que as lixeiras antigamente vinham invariavelmente com a inscrição "lixo", assim como as latas de feijão, arroz, açúcar, farinha e café, para identificar o conteúdo. Lixo é coisa inútil, sujeira. Se lixeira fosse lixo ninguém compraria...

terça-feira, 14 de julho de 2009

CONCURSO OFICIAL DE JUSTIÇA

Saiu publicado hoje no Diário da Justiça Eletrônico - Caderno Administrativo - o edital de abertura do concurso público para admissão de Oficial de Justiça no estado de S. Paulo.
As inscrições deverão ser feitas no período de 20 de julho a 18 de agosto de 2009, às 16h00, pelo site www.vunesp.com.br.
Efetuar o pagamento da inscrição usando boleto que deverá ser impresso pelo site acima, no valor de R$ 39,00, em qualquer agência bancária até o dia 18 de agosto. O candidato terá direito à redução de 50% no valor da taxa de inscrição desde que esteja matriculado em curso pré-vestibular ou curso superior (graduação ou pós-graduação) e não perceba remuneração de dois salários mínimos ou mais.
As provas serão aplicadas no dia 11 de outubro de 2009 e consistirão em 2o questões de ortografia, morfologia, sintaxe e leitura e interpretação de texto; 40 questões dos códigos do processo penal, processo civil, código penal, direito constitucional, direito administrativo e normas da Corregedoria Geral da Justiça (ver artigos no edital); 4 questões de atualidades; 8 questões de matemática e 8 questões de informática.
Os portadores de necessidades especiais serão classificados numa lista especial e os que forem aprovados serão submetidos posteriormente a perícia médica para verificação de compatibilidade com as atribuições do cargo.
Para inscrição é necessário: ser brasileiro nato ou naturalizado ou gozar de prerrogativas constitucionais; ter 18 anos completos até a data do encerramento das inscrições; estar quite com a Justiça Eleitoral; estar quite com o Serviço Militar; não ter condenação por crime contra o patrimônio,a Administração, a fé pública;os costumes e os previstos na Lei 11.343, de 23.08.2006; ter concluído o Ensino Médio até a data da posse.
O Oficial de Justiça tem jornada de 40 horas semanais; vencimentos de R$ 3.150,97 mais auxílios saúde, alimentação e transporte, menos descontos de contribuição previdenciária (11%) e IAMSPE (2%) e imposto de renda. Servidor público não tem direito a Fundo de Garantia.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

as palavras sofrem: FESTA JULINA

O nome Festa Junina parece advir do mês de Junho. Há, porém, quem diga que advém de João, o principal santo homenageado nessas festas de origem católica romana. Festa junina = festa de S. João. Acontece que, para evitar a concorrência de outras festas, muitas instituições passaram a realizá-la em Julho e a chamá-la de Festa Julina. Festa de S. Júlio? Independente da origem, o nome da festa é Festa Junina. Mesmo sendo realizada fora de época, seu nome é Festa Junina.

DESAMPARO

Rubens Antônio da Silva
.
A mãe toma a criança nos braços, aperta-a contra o peito.
- Filhinha, pode cortar a perna do papai... pra ele não deixar mais a gente sozinha?...
.....................................................................................................
- Não, mamãe. Corte o carro!!!
.

foto: RECICLAR - IDEIA PRA SE VESTIR


Alunos do Colégio Adventista desfilam no aniversário de Tatuí com roupas feitas de jornal e saco de lixo. (2008). Clique na foto para ampliar.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

artigo: UMA BANDEIRA PARA TATUÍ




Rubens Antônio da Silva


.


A bandeira da nossa cidade me parece provisória. O brasão dentro de um retângulo branco. Não é verdade?


Pois acho que deveríamos ter uma nova bandeira. E por falar em bandeira, sempre fui favorável que esse símbolo fosse popular, de fácil confecção por qualquer cidadão. Diferentemente do brasão, que deve ser utilizado pela municipalidade e é recomendável que seja bem elaborado. Para mim, o brasão de Tatuí é belíssimo. O hino, também.


Hoje estive no gabinete do prefeito Gonzaga a trabalho e aproveitei para fazer a sugestão: uma bandeira para Tatuí e, de preferência, simples, como a da maioria dos países. Uma primeira sugestão: um retângulo com três faixas. A primeira superior, amarela, simbolizando um dos municípios mais ensolarados do Estado. A do meio, vermelha, a cor da nossa terra que nos deu o apelido carinhoso de pé vermelho. A inferior, azul, lembrando o rio que dá nome à cidade. Só isso.


O prefeito me perguntou: e o brasão sai? Respondi sim. Trata-se de um símbolo à parte. Poderíamos inserir algo que lembrasse a música, mas insisto que deve ser algo fácil de se elaborar.


Gonzaga anotou e me prometeu que vai solicitar um estudo sobre a história de nossa bandeira. Perfeito. Espero ter colaborado.


Em tempo: a bandeira das três faixas nada mais é do que a faixa que a Prefeitura traça contornando os prédios públicos e que já é conhecida da população. Acho isso positivo.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

as palavras sofrem: FIM DE SEMANA

Já estamos acostumados com a expressão "fim de semana". Sábado e domingo já dão um tom diferente para os dias que os precedem e sucedem. Uma sexta-feira de preparativos - chega de canseira, e uma segunda-feira brava. Às vezes temos um fim de semana prolongado por um feriado nesses dias. É só alegria. Mas... se formos ver bem, sábado e domingo não são um fim de semana. Sábado é o último dia da semana e domingo o primeiro. Seria, então, uma transposição de semana, ou outro nome melhor. Vendo assim, o domingo faz de todos os fins de semana um fim de semana prolongado. Mas, vamos lá, o que importa isso?

sábado, 27 de junho de 2009

crônica: MASANOVU SATO (Antonio)

Rubens Antônio da Silva
.
Quem não conheceu Sato (ou Antonio) poderá pensar que o que vou escrever é coisa comum quanto aos que nos deixam. Os homens nos parecem melhores quando já não os temos. Aquela questão de que só damos valor àquilo que perdemos. Mas quem teve o prazer de compartilhar alguns de seus dias com Sato sabe de que se tratava de alguém especial. Homem boníssimo, leal, caridoso, honesto, trabalhador e... até parece trocadilho: sensato. Marido de uma dedicação muito especial. Sato e Zilda, uma prima valorosa, exemplificavam bem como uma vida a dois deve ser. A harmonia inabalável. A plena compreensão mútua. Será inesquecível a lembrança daquele casal com seu Voyage branco fazendo semanalmente seu roteiro de visitas, levando alegria e descontração aos amigos e parentes, principalmente os enfermos e idosos. Hospitaleiro até o último momento. Calmo, falante e risonho. Nunca o vi gritar, se lamentar, praguejar. Amigo das plantas, que sempre vicejavam por suas mãos. Que será delas, agora? Certo, um mestre nunca parte sem deixar um discípulo depositário de sua sabedoria. Zilda recebeu um grande tesouro. Nós também. Mas a saudade, quem a removerá do nosso caminho?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

segunda-feira, 22 de junho de 2009

parábola: MARIA E MARIAH

Rubens Antônio da Silva
.
Existem pessoas, empresas e governos que trabalham com esforços iguais e obtem resultados diferentes. Façamos uma comparação.
.
Haviam duas mulheres quase iguais, que chamaremos de Maria e Mariah. O mesmo trabalho doméstico, o mesmo tamanho da família, os mesmos eletrodomésticos. Todos os dias, elas serviam cinco refeições: café da manhã, almoço, café da tarde, jantar e lanche da noite. E lavavam as louças e utensílios.

Uma tinha o costume de lavar a louça antes de preparar a próxima refeição. A outra, servia a refeição e logo em seguida lavava a louça. O mesmo trabalho.


A diferença é que uma conservava a pia limpa e a outra, cheia de utensílios sujos da comida.

Vale a pena analisar nossas atitudes e encontrar onde estão os ralos que minam nossos objetivos.

trova-piada | Falavas que estava cheio

.
Rubens Oficial
Falavas que estava cheio
o grande salão, mas vi-o.
Engano, do teto ao meio
estava todo vazio.
.

Outras mídias: A Trova Risonha (organização de Eno Teodoro Wanke). Prêmio: Clube Carioca de Trovas, 1984.. 

cachorro

Cachorro que late não morde (enquanto late).

quinta-feira, 18 de junho de 2009

as palavras sofrem: PEDÓFILO

A palavra pedófilo, segundo o Aurèlio, vem do grego paidóphilos, é adjetivo e substantivo masculino, e sgnifica "que, ou aquele que gosta de crianças". É o antônimo de pedófobo, "que, ou aquele que tem aversão por crianças". Conheço e admiro muitos pedófilos, no bom sentido. Pessoas que se encantam com os pequenos. Mas não vá saindo por aí dizendo que é pedófilo. Você pode até ser preso. Se isso acontecer, chame o dicionário. É que hoje a palavra está associada a maníacos por crianças. Esses devem ser coibidos.

evaporação

A evaporação é um ritual de purificação das águas.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

crônica: JORNALISTA SEM DIPLOMA

Rubens Antônio da Silva
.
Houve um tempo em que sonhava em ser jornalista, mas... não tinha condições de cursar jornalismo. Até hoje não temos esse curso na cidade. Fui trabalhar na revista Aldeia Global no setor comercial e aproveitei para apresentar alguns textos ao Ivan, o editor. Assim pude ver meus primeiros trabalhos publicados. Foi assim que fui para no jornal O Progresso de Tatuí, apresentado pelo jornalista Walter Silveira da Mota. Depois de pouco tempo, fui registrado como funcionário da empresa. Fazia as reportagens e escrevia as matérias. Na funcional, porém, o que constava era: colaborador. Na carteira profissional, pior: datilógrado... Tudo porque não tinha diploma de jornalista. Certa vez, o escritor Macedo Dantas escreveu um artigo sobre um poema meu e me tratava de jornalista: o jornal cortou. Guardo até hoje o original com a palavra encantada - jornalista! Foi assim que entrei na luta (timidamente, confesso) contra a exigência do diploma. Cheguei a publicar longa carta no Diário Popular (hoje Diário de S. Paulo) contestando um artigo publicado em defesa do canudo. As notícias projetavam a possibilidade de a exigência vir a cair. Deixei o jornal e fui trabalhar em serviços com que nunca sonhei. E não posso reclamar de tudo o que Deus me deu. Mas eis que agora leio a notícia de que o Supremo Tribunal Federal decidiu que a exigência do diploma fere princípios constitucionais. E com voto tatuiano. Celso de Melo mais uma vez nos deu orgulho. Foi um prazer vê-lo na TV afirmando categoricamente que a imprensa deve ser "essencialmente livre". Por tudo isso, me sinto também vitorioso. Já não tenho mais pretenções nesse ramo. Mas foi uma satisfação.

terça-feira, 16 de junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

crônica: JOÃO EDUARDO RIELO

Rubens Antônio da Silva
.
Muita gente não sabia que ele estava doente e foi um susto muito grande. João Rielo não se lamenta, só quer trabalhar. Quando soube da gravidade da sua enfermidade, desconversou. Não é isso, não. O médico está enganado. Procurou acalmar a família, não quer o sentimento de pena. Quer trabalhar. Mesmo quando a doença tira a luz de seus olhos e a firmeza de suas pernas, não reclama. Pergunta pela identidade das pessoas que o rodeiam. Eu mesmo, estando ao seu lado, quando informado por sua mulher de que estava ali, pude sentir a sua mão ainda firme bater em meus joelhos em sinal de saudação e alegria. O seu caso se complica, mas enquanto tem voz, bendiz e louva. Tanta gente se juntou ao corpo inerte no velório de Boituva. Não houve quem não se recordasse do quanto ele gostava das pessoas e era gentil com elas. Educado, pacífico, conciliador. Tolerante, paciencioso. Trabalhador, forte, disposto. Cada um procura seu adjetivo para qualificá-lo. Nunca rancoroso, nunca raivoso, nunca violento. João Rielo mereceu a profusão das lágrimas que correram nas faces desoladas. Pois é, João, a morte é mesmo assim. Tudo o que que você não queria era fazer chorar.

sábado, 13 de junho de 2009

crônica: JOAQUIM

Rubens Antônio da Silva
.
Faz bem pouco tempo que estou no orkut. Mês e meio, mais ou menos. Fiz e recebi convites de adição de amigos. Logo encontrei lá a figura do Joaquim. Ou Dr. José Joaquim Dias da Silva. Não poderia deixar de abrigá-lo na minha conta de amigos, trazendo para perto aquele advogado que me enxergava e me saudava de longe. Pedi add. Uma vez, estando em diligência no Conjunto Del Fiol do CDHU, no Bairro Tanquinho, eis que de repente ouço ao longe meu nome. Era ele que vinha em minha direção apenas para me cumprimentar. Um moço alegre e comunicativo, que me parecia sem inimigos. Seu pai foi secretário da Escola Tomás Borges quando eu era aluno, e sua mãe professora, quando eu lecionava. E eu aguardava sua aprovação na página do orkut quando recebi a cruel notícia. Fui ao velório e lá estava ele, de óculos, sem vida, ao lado dos pais. Que Deus lhes dê o conforto. Meu pedido de adição de amigo está feito. Amigo que morre amigo é amigo para sempre. Está registrada minha saudade.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

ABOBRINHA

A mãe desliga o rádio. A filha reclama.
- Agora só tem abobrinha, filha!
A criança pensa por um instante.
- Deixa, mãe, quero ver como que é abobrinha.
.
Rubens Antônio da Silva

terça-feira, 9 de junho de 2009

crônica: POSTO DE COMBUSTÍVEIS

Rubens Antônio da Silva
.
Não sei o nome daquelas pessoas. Também o que aconteceu até minha chegada só sei pelo que me disseram. Parece que um mendigo escolheu um espaço na calçada, atrás de uma bomba de combustíveis, para instalar a sua cama. Deve ter considerado a segurança do local e a cobertura metálica. Mas o posto estava em pleno funcionamento e certamente enfrentou a oposição dos que ali trabalhavam. Mas ele estava lá, enrolado em seu cobertor. Era onze e meia de uma noite. Tudo o que eu queria era voltar para casa e ganhar uma cama quentinha. Mas há pessoas bondosas e idealistas que, nessas condições, em vez de pensar na cama quentinha, pensam naqueles que não a tem. E foi o que aconteceu. Uma senhora já velha, magra e fraca, saiu de seu conforto para procurar pelos desafortunados que habitam as ruas. E encontrou aquele homem ali. Parecia bem acomodado e agasalhado. Ela ofereceu-lhe alguma coisa para comer. Comer?
- Não, minha senhora, aqui não!
- Esse homem deve estar com fome.
- Não, aqui não. Aqui não é lugar para piquenique. É uma estabelecimento comercial.
- Eu limpo a sujeira...
- Não, sra, não.
A mulher estende sua mão frágil em direção ao homem dormente, inclinando o corpo.
- Não, dona.
O frentista detem sua mão e a afasta daquele ser que parece tudo ignorar.
Aqui eu entro na história. Não sabia de nada. Parei no semáforo fechado e vi aquela mulher suplicante chegar à janela do carro. Pensei em algum acidente ou mal súbito.
- Moço, moço, liga para a Polícia. Esse homem me bateu, liga para a Polícia.
De impulso, peguei o celular e digitei 190. Um homem procurava dissuadi-la.
- Ninguém bateu na senhora, dona. Por favor...
Toca, toca e ninguém atende. Um desconhecido montado numa moto, talvez cliente do posto, se aproxima.
- A senhota tem que entender. Eles tem o direito de não querer mendigo no posto...
Finalmente atenderam.
- Corpo de Bombeiros, boa noite.
- Não é da Polícia? Digitei 190...
- É... quando eles não atendem, cai aqui. Por favor, ligue novamente.
E a mulher se lamentava.
- Ele me bateu só porque eu queria ajudar aquele homem.
- Ninguém bateu na senhora, dona!
Abriu e semáforo e saí com o carro. Toca, toca e, finalmente...
- Corpo de Bombeiros, boa noite.
- Mas caiu aí de novo?
- Espere um pouco...
Demorava e precisei desligar para dirigir.
Minutos depois, passei novamente pelo local. Parecia tudo calmo. A mulher, agora calma, conversava com alguns homens. O Posto funcionaca normalmente. O morador de rua dormia como se nada tivesse percebido.
Rubens Antônio da Silva

domingo, 7 de junho de 2009

JAQUELINE

Rubens Oficial

Mamãe, estou com fome
e a fome me consome.
Mamãe, quero mamar
na mamadeira nova de bico novo.

Mamazinho, mamãezinha.
Só leitinho, que açúcar -
papai falou - faz mal.

- Mamãe, por que tem açúcar,
então?
(Tatuí, 1988)

RIO E SOL

Rubens Oficial

(para Bruno)

O sol se banha no rio
e não se molha.
Mergulha no leito frio,
para quem olha.

O rio desce a pedreira,
mas não leva o sol,
que ali fica a tarde inteira,
aquecendo o caracol.

Quer pescar um arco-íris
e levá-lo até o céu.
Oh, sol! Leva, ao partires,
minha dor nesse teu véu.

(Tatuí, 1999)

O DESCOBRIMENTO DO MUNDO


Rubens Oficial

O mundo, por certo,
um dia foi descoberto.


Mas nem sempre foi igual.
- O descobrimento
é individual.


O mundo transfigura
aos olhos da gente.
Para mim e para você
existe um mundo diferente.


Mesmo assim, desde Adão,
pisamos o mesmo chão.


Mas, então, como é que é?
O mundo está na visão
ou o mundo está no pé?


Na verdade, Quem fez o mundo
fez o homem e a mulher
com poder de transformá-lo
no mundo que quiser.

(Tatuí, 20.01.1995)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

praça

Embora a Prefeitura tenha instalado muitas lixeiras na praça, as árvores insistem em jogar folhas ao chão.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

UM POEMA PARA ALUMÍNIO

Rubens Oficial


(Este poema foi um pedido da professora Renata, da Escola Manoel Netto Filho, à minha netinha Gabrielly Berger, quando ela morava em Alumínio e era aniversário da cidade. As crianças deveriam pedir a ajuda de um adulto. Gaby tinha 5 anos e ainda não era alfabetizada. Então fui fazendo perguntas a ela sobre o que achava de Alumínio e fui escrevendo. Confiram o resultado da experiência.)





minha cidade é bonita!
gosto das ruas, das calçadas
gosto da minha casa

gosto da minha escola
da biblioteca
(mesmo sem saber ler)
e da brinquedoteca
(porque ali sei o que fazer...)

se eu fosse fotógrafa
fotografaria as árvores do horto
- enormes -


os bancos com cara de sapo e coruja



da casa da vó Lídia
vejo o morro verde que tem uma árvore branca
nem penso em ir até lá
mas faz bem olhar


gosto de Alumínio
porque é o meu lugar
sou feliz aqui
sou feliz assim
e lá-ra-ra-ra-rá.

30.03.2009

domingo, 31 de maio de 2009

COMO UM PREFÁCIO

Em dias incertos, fico sem carro e preciso sair e voltar para casa a pé. É demorado e, às vezes, a carga é pesada. A demora em chegar em casa também se deve ao fato de encontrrar muita gente pelo caminho. Gente que há tempo não via, com quem não conversava. Gente querida. É uma festa! E a triste constatação do distanciamento involuntário que o trabalho e o mundo moderno produzem. Daí surgiu a ideia de criar uma conta no Orkut. Um lugar para reunir os amigos, falar e interagir com eles. Posso dizer, de certa forma, que entrei no Orkut "para andar a pé". Como numa esquina qualquer, por vezes me surpreendo ao encontrar aquele cara que não sabia por onde andava, o que fazia. E ele traz "debaixo do braço" seu álbum de fotos, algumas cartas e me mostra com quem tem convivido, o que tem lhe dado mais alegrias. E trocamos informações e lembranças. (É certo que também, como numa avenida qualquer, vejo passar no Orkut muita gente desconhecida. Às vezes nos esbarramos, nos cumprimentamos, mas é bom estar atento. Nunca se sabe...). Mas agora resolvi mostrar aos amigos novamente reunidos mais do que fotos. Então criei este blog. É o meu livro de poesias, crônicas e outras coisas que gosto de escrever. Está na mesinha de centro ou na estante da sala virtual. Estejam à vontade. Espero que gostem. Se não gostarem, é só fechar o livro, e vamos mudar de assunto.

sábado, 30 de maio de 2009

trova: ANTES DE ENTRAR


Rubens Antônio da Silva

.

Antes de entrar num lugar
(escute bem o que digo),
se lembre de questionar
se Deus entrará consigo.

.
Ilustração: Sem Título (2003), óleo sobre tela com textura de Rafael Miranda. Foto: Jaqueline Maciulevicius.


segunda-feira, 7 de julho de 2003

percepções / Império

Rubens Oficial
.
os brasileiros admiram os americanos
lêem seus livros
vêem seus filmes
ouvem suas canções
vestem sua língua e sua bandeira

os americanos também admiram os americanos
lêem seus livros
vêem seus filmes
ouvem suas canções
vestem sua língua e sua bandeira

Tatuí, 2003

insegurança


tenho medo de teus olhos
tenho medo de teus olhos
que lêem, relêem
lêem, relêem
como um punhal
que penetra até os ossos das palavras
.

Tatuí, 2003

terça-feira, 1 de setembro de 1998

cata-frases | Rubens Ricúpero / FHC

“No fundo é isso mesmo. Eu não tenho escrúpulos! Eu acho que é isso mesmo, o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde!… ” 

— Rubens Ricupero, no dia 1º de setembro, nos estúdios de Brasília, extraído do sinal aberto da TV Globo, disponível no YouTube. 

“… um momento de fraqueza me levou a dizer palavras que não refletem o que penso, nem o que sinto… ” 

— Rubens Ricupero, no dia 6 de setembro, ao deixar o Ministério da Fazenda , Jornal Nacional, TV Globo. 

“… A queda do Ministro Ricupero traz ao país inteiro a preocupação com o futuro do Real […] É preciso que todos os brasileiros se juntem para garantir o Real…” 

— FHC, Campanha eleitoral de 6 de setembro, no rádio e televisão. 

segunda-feira, 8 de julho de 1996

percepções / x-poesia

.
Dê poesia
para quem tem fome.
Dê poesia.
.
Dê poesia
para quem tem fome
de poesia.

Tatuí, 1996. Outras mídias: Dias de Poesia.

sexta-feira, 7 de julho de 1995

ansiedade

.
o mundo é pequeno
e tão cheio de gente
a cabeça é pequena
e tão cheia de ideias
a vontade é tão grande
mas pequeno o efeito
a cabeça é final
mas os pés são começo
.
1995, Tatuí

domingo, 12 de março de 1995

domingo, 31 de outubro de 1993

Na sala dos Oficiais de Justiça no antigo fórum de Tatuí

A colega Vilma Domingues Albuquerque Bueno fez esta foto na antiga sala dos oficiais de justiça do antigo fórum de Tatuí, na Rua São Bento, 808. Não há data. Escaneei e postei aqui como se fosse em 1993, uma data aproximada. Como se pode ver, não existia computador no fórum.

domingo, 5 de agosto de 1990

A Vida Voa

Rubens Oficial
letra e música


I

A vida voa
na asa do tempo,
A vida boa,
folhas ao vento...

A via soa
no firmamento.
A vida ecoa
no pensamento.

A vida boa o vento levou.
Voa o vento, o tempo voa,
a vida boa não voltou.


II

A vida à toa,
oca de intento,
a vida é proa
no mar imenso.

A vida boa
no cata-vento
jamais enjoa.
É sentimento.

A vida boa o vento levou.
Voa o vento, o tempo voa,
a vida boa já voltou.