terça-feira, 20 de abril de 2010

achados... FRAGMENTOS 3 (Manuel Bandeira)

Todos os dias a poesia reponta onde menos se espera: numa notícia policial dos jornais, numa tabuleta de fábrica, num nome de hotel da Rua Marechal Floriano, nos anúncios da Casa Matias... Poesia de todas as escolas. Parnasiana: "Fábrica Nacional de Artigos Japoneses" (não sei se ainda existe, era na praça da República). "Surréaliste"; "Hotel Península Fernandes" (ao meu primo Antoninho Bandeira, que perguntou ao proprietário português: "Por que Península Fernandes?", respondeu o homem: "F'rnandes porque é o meu nome, e Península porque é bonito!" Por aí assim, românticos, simbolistas, futuristas, unanimistas, integralistas...

Faltava à minha lista algum haicai. Acabo de achar vários agora, e estupendos, onde menos esperava: num livro de fórmulas de toilette para mulheres.

Alguns exemplos:"


Água de rosas
Glicerina
Bórax
Álcool"

Que brilho verbal, que surpresa para o ouvido na sonoridade seca da palavra álcool depois da musicalidade um pouco solta dos dois primeiros versos e desfazendo num como acorde suspensivo a cadência  perfeita do verso bórax!

"Tintura de benjoim
Borato de sódio
Tintura de quilaia
Água de rosas


Água de Colônia
Água de flores de laranjeira


Borato de sódio
Mentol

Óleo de rícino
Óleo de amêndoas doces
Álcool de 90º
Essências de rosas"

Dirão que o haicai tem só três versos. Pois aqui vai um:


"Pó de arroz
Talco
Subnitrato de bismuto"

Outro:


"Água de rosas
Ácido bórico
Essência de mel da Inglaterra"

Há mesmo um que constitui um verdadeiro "epigrama irônico e sentimental". Senão, vejam:

"Leite de amêndoas
Bicloreto de mercúrio"

O livro de Marie d'Osny encerra, nestas e outras receitas, uma lição e um exemplo de poesia.

Crônicas da Província do Brasil, 1937, crônicas, Civilização Brasileira.

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